31 out

A Thorns Gothic Rave entrou para a história da cena underground brasileira como o primeiro e único evento de grande porte do gênero. Depois de oitos edições, a festa deixou de existir em 2006, mas não foi por falta de público, patrocínio ou alvará. Foi por conta de uma tragédia. Vítima de assalto à mão armada, o músico, promoter, produtor e DJ Mauricio Mângia, organizador da celebração dark, morreu assassinado. Desde então ninguém mais retomou tal proposta. Vale dizer que a festa nasceu como subproduto da casa noturna gótica de mesmo nome, que funcionou durante três anos no bairro de Pinheiros, zona Oeste de São Paulo.

A primeira edição da Thorns rolou em 1999, em Vargem Grande Paulista, e atraiu pouco mais de mil pessoas. A notícia de uma rave gótica rolando no estado de São Paulo correu pela mídia e pelo underground até que, em sua segunda edição, em agosto de 2000, a balada dobrou seu público. Dessa vez realizada na bucólica Vila de Paranapiacaba, a rave teve como headliner o grupo Violeta de Outono. Em 2001, mais um avanço: a organização conseguiu trazer a banda inglesa Gene Loves Jezebel para tocar na capital. Foi no ano seguinte, entretanto, que aconteceu a mais lendária das edições. Num sítio localizado em Rio Grande da Serra, cerca de três mil pessoas puderam assistir aos shows de bandas como Finis Africae e The Forest.



A cada acontecimento a rave ficava maior. A quarta edição repercutiu amplamente na grande mídia, com matérias de comportamento em telejornais e colunistas de cultura divulgando e comentando o evento em suas pautas. Em 2003, a Thorns aportou no Pico do Jaraguá. Ao longo de 12 horas, teve como destaques o grupo pós-punk Zero, famoso nos anos 80 por sucessos como “Agora eu Sei”, “Formosa” e “Passos no Escuro”, Avec Tristesse e Venin Noir. Além dos shows, DJs como Washington, residente do Madame Satã, e Nagash, do projeto Carcasse, tocaram sets abrangendo todos os desdobramentos da cultura gótica, do dark wave ao EBM. É que nesse ponto a organização optou por agradar um público eclético e variado.

A quinta edição teve, ainda, open bar de vinho, exposições, malabarismo, pirofagia, dança e performance, duelos de esgrima, stands de piercing e tattoo, e sediou o Primeiro Encontro Noturno de RPG - atrações que se tornaram fixas. No ano seguinte, o clube Thermas de Monte Claro, em Riacho Grande, no ABC Paulista, recebeu três pistas, onde discotecaram os DJs Click, Pomba, Ricardo Wolf, Cid, Razor B., Eduardo Gyurkovitz, Rogério Bogari e Alex Twin. E a festa continuou crescendo...



Se na sétima edição o evento contou com mais de cinco mil pessoas, o oitavo e último ano atraiu cerca de sete mil à Ilha de Monte Carlo, estância ecológica e turística de Riacho Grande, município de São Bernardo do Campo, no Clube dos Bancários. As atrações principais foram os holandeses do Clan of Xymox, com abertura das Mercenárias. Rolou também Tuatha de Danann (metal medieval), Kaiaphas (industrial), Enjoy (synth pop), Pecadores (industrial), Das Projekt Der Krummen Mauern (gothic rock), Trinnity (gothic metal), Laudany (doom) e Histamina 80 (banda de covers de clássico dos anos 80).

A seguir, colhemos alguns depoimentos de pessoas envolvidas com a Thorns e que dão uma dimensão histórica da importância da iniciativa para a cena local. Saca só:

“A cena na verdade estava bem devagar após 1995, quase nada acontecia por aqui, e quando o Mauricio começou em 2000 com a rave, foi bem difícil, pois aqui não tínhamos (e ainda não temos) mídia especializada para esse estilo de música, e você precisa promover no boca a boca mesmo. Eu via o Mauricio em muitos eventos, todos os dias da semana, sem importar se o evento era pequeno ou grande. Ele ia a todos, fez algumas festas e lembro dele me dizendo que tinha perdido dinheiro, etc. Mas o cara insistiu, e isso é primordial para se obter sucesso, principalmente onde existe público, só não é fácil chegar até ele. O resultado disso foi o crescimento do público nas edições seguintes, que passaram a abranger outras vertentes, como o indie, o gothic metal, que na verdade são bem próximas na cena europeia. O resultado desse trabalho árduo foi o sucesso. Porém, com sua morte, tudo o que foi feito por ele simplesmente acabou. As pessoas ficaram orfãs desse tipo de encontro. Acho que o que fica mesmo é o espirito do evento, que era feito com afinco. Numa cena bagunçada, sem diretrizes, ele fez parte de um grupo bem seleto de pessoas que devem ser respeitadas pelo que fizeram para a cultura alternativa.”

Alex Twin, dono do selo Wave Records e organizador do festival Wave Summer Festival, que vai rolar em Cotia/SP, no próximo dia 7 de fevereiro.

“Conheci o Mauricio no início de 2000. Sentado em uma mesa do Madame Satã com umas amigas, comentei que ouvira falar de uma rave que ocorria há pouco tempo e que não tinha conseguido ir. O Mauricio estava na mesa e perguntou o que eu achava da ideia dessa rave gótica. Comentei que achava genial e ele me contou que era o organizador. No mesmo momento, perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele. Já topei e ficamos muito amigos. Ele estava começando a organizar a segunda, que seria em Paranapiacaba, e me convidou para cuidar da excursão que sairia do ABC. O evento foi vital para a noite gótica. Foi o único evento daquele porte para o publico gótico, era parte obrigatória da agenda de todos que curtiam um mínimo do tema. Além do público, todos tinham espaço, praticamente todos os DJs importantes da noite de São Paulo discotecaram em pelo menos uma da edição; além das bandas internacionais, dezenas de bandas nacionais se apresentaram na lá. O evento era um ótimo lugar para divulgar o trabalho, bandas pequenas raramente têm chance de tocar em um evento para quase 4 mil pessoas. A influência até hoje é muito grande, dificilmente você encontrará alguém na faixa dos 30 anos na noite que não tenha frequentado a rave. Vários DJs conhecidos no meio alternativo tocaram lá, mesmo muitos que hoje jamais seriam ligado aos góticos. Artistas de vários estilos, já conhecidos atualmente, frequentaram e/ou se apresentaram na rave. Era O EVENTO, que mesmo quem não gostava, tinha que ir, porque era único.”

Humberto Luminati, DJ nas festas Enter The Shadows e Wake The Dead.

“Comecei a frequentar as festas do Mauricio a partir da terceira edição. Foi uma revolução no movimento gótico da época, que estava meio esquecido até então, com uma festa aqui e outra ali apenas. Mas ele fez a cena ir ao extremo, estimulando pessoas até de outros estados a virem nas festas dele. Lembro que frequentava muito a Galeria do Rock nessa época, e a cada semana surgiam adeptos novos, eram muitas pessoas se descobrindo na cena gótica, o que infelizmente hoje não acontece mais. Por isso estamos carentes novamente, como quando ele começou. Essa festa em que tocamos sempre ficará guardada na memória da banda. Quando recebi o convite do Mauricio, ficamos muito felizes com o reconhecimento do nosso trabalho no meio gótico, em saber que íamos tocar ao lado de grandes bandas importantes, nacionais e internacionais, foi muito emocionante.”

Evandro Ferreira Barbosa, baixista da banda Histamina 80, que tocou na última edição do evento



O Humberto Luminati escaneou algumas imagens históricas da Thorns e nos enviou esta simpática seleção:


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